Capitalismo Climático: Utopia ou Ilusão?

Updated: Aug 19



É de entendimento comum dos ambientalistas, ou pelo menos dos mais esclarecidos, que não é possível falar em proteger o meio-ambiente sem também falarmos em erradicação da pobreza e na superação da desigualdade social. Portanto, será possível reverter o atual quadro de crise climática, dentro da mesma lógica de desenvolvimento econômico que a gerou?



Historicamente, o capitalismo tem sido responsável pela perpetuação e crescimento da desigualdade ao redor do mundo. Se essa leitura um dia foi fruto de análises teóricas sobre o modelo econômico, hoje é fruto da leitura de um panorama dos últimos 50 anos. Os Estados Unidos, maior símbolo internacional do império capitalista, reflete sua realidade nos números: o poder médio de compra dos cidadãos norte-americanos não teve mudanças significativas nos últimos 40 anos, e enquanto a produtividade cresceu quase 70% neste mesmo período, os salários não chegaram a crescer 15%.

Fonte: https://www.pewresearch.org/fact-tank/2018/08/07/for-most-us-workers-real-wages-have-barely-budged-for-decades/

Fonte: https://www.epi.org/productivity-pay-gap/

Sob a ótica do capitalismo é esperado que o aumento da qualidade de vida e o desenvolvimento das comunidades se dê através do crescimento econômico, porém o que se observa na realidade é que existe um descompasso na equação: as comunidades infelizmente se desenvolvem num ritmo muito menor do que a economia cresce. As desproporções são drásticas: em 2018, cerca de 26 pessoas controlavam a mesma quantidade de riqueza que outras 3,8 bilhões. No ano anterior a este, 82% de toda riqueza criada no mundo foi acumulada pela fração de pessoas que representa 1% da população mais rica do globo.

Enquanto cidadãos que se identificam com as esquerdas e direitas políticas se perdem em debates sobre “a culpa é do estado” vs. “a culpa é dos grandes empresários”, a conta ainda chega no mesmo endereço: o do trabalhador. Em plena pandemia, enquanto metroviários de São Paulo fazem greve para garantir seus empregos e seus padrões de vida, e entregadores de aplicativo fazem breque contra a precarização do trabalho, os bilionários do Brasil ficaram alguns bilhões mais ricos. Mas não podem pagar a conta do problema que eles mesmos criaram, porque precisam desse dinheiro para investir. É bom para a economia. E assim a perpetuação da desigualdade segue, sendo uma das assinaturas mais marcantes do sistema capitalista.

Mas há ainda um outro problema do capitalismo que concerne à sobrevivência global de nossa espécie: o mercado financeiro tem anseio por um crescimento econômico que se pretende infinito, enquanto tem ficado cada vez mais claro ao longo dos últimos anos que nossas capacidades planetárias não são.

Outro aspecto marcante do sistema econômico atual, é a não internalização dos passivos ambientais que gera. Isso pode ser observado desde os impactos menos evidentes da exploração dos territórios, como a perda de biodiversidade e diminuição dos serviços de regulação do clima fornecidos pelas florestas e oceanos, à medida em que alterarmos as paisagens para empreendimentos de mineração, monoculturas e acidificamos os oceanos com as concentrações crescentes de CO2; até os casos mais emblemáticos como a ruptura das barragens de Mariana e de Brumadinho, que deixam claro que para os grandes grupos financeiros, existem preocupações maiores do que a preservação ambiental e até mesmo a vida das pessoas.

Dos impactos menos evidentes aos mais escandalosos, um fator é comum: enquanto os lucros da atividade econômica são privatizados, as perdas são distribuídas para toda a sociedade. Muita riqueza acumulada por poucos, muito prejuízo distribuído aos demais. Atrativo dos países do terceiro mundo para os investidores internacionais.

O estado, que teoricamente deveria ter a mão pesada para intervir protegendo o interesse da sociedade, enfrenta uma dificuldade paradoxal: os políticos responsáveis pela condução de seus assuntos muitas vezes encontram-se nas mãos deste mesmos grupos econômicos, responsáveis por financiar suas candidaturas como forma de garantir a manutenção dos seus interesses, perpetuando seus projetos de poder pessoais e também os do capital, promovendo desde a flexibilização das normas ambientais até a diminuição dos direitos trabalhistas, conforme as necessidades do mercado.

No atual contexto de emergência climática e pandemia global, ressurgem com força e tardiamente preocupações em internalizar os custos da degradação que a produção industrial causou de forma agravante ao longo das últimas 5 décadas: Mercados de Carbono, Mecanismos de Desenvolvimento Limpo, e outras soluções de mercado. Com a inevitável recessão econômica que nos aguarda virando a esquina, a União Europeia fecha pacotes trilionários para financiamento de planos de retomada econômica de forma restaurativa.

Porém, como garantir a superação da crise climática, para não dizer humanitária, sem mecanismos de controle que garantam a não perpetuação da desigualdade social e da degradação ambiental que observamos até agora?

“Nós não podemos resolver um problema com a mesma mentalidade que o criou”. A frase célebre do físico alemão Albert Einstein ecoa pelas gerações. Ou ainda dito de forma mais evidente, “insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”.

Será possível reverter o quadro em que nos encontramos, sem uma profunda mudança na balança comercial e no sistema financeiro mundial? Não seria hora de desenvolvermos uma economia civil colaborativa, ao invés de uma economia empresarial competitiva?

Mas o drama maior dos jovens e ativistas climáticos é que apenas denunciar o sistema econômico não resolverá por si só os problemas.

Sem o menor indício de uma mobilização internacional política e da juventude para mudar profundamente a lógica ao qual aparentamos estar acorrentados, à medida em que aumentam as concentrações de gases do efeito estufa na atmosfera e o tempo para evitar um colapso climático se esgota, o planeta não pode esperar. Dependemos dos mercados de carbono, dos pacotes para retomadas econômicas com foco em energias limpas e cadeias de produção regenerativas, e de algum tipo de sorte que ainda não sabemos se iremos ter.

Caso este cenário continue se apresentando como está, estaremos prestes a ter uma das maiores surpresas ou decepções da história da humanidade: descobriremos o “capitalismo verde” como uma solução possível que demorou a chegar, ou será ele, por falta de criatividade, a última das chances e das esperanças que tivemos de mudar o rumo da nossa história?

Artigo escrito por:

Eduardo Fronza, estudante concluindo o curso de graduação em Engenharia Sanitária e Ambiental, com ênfase nas áreas de Educação Ambiental, Recursos Hídricos e Mudanças Climáticas. Atualmente desenvolve pesquisa com Ondas de Calor na região centro-sul do Brasil. Teve experiências atuando em projetos de extensão, laboratórios de pesquisa e órgãos públicos. Acredita no potencial das ações coletivas em promover o empoderamento social e a transformação das relações humanas, partindo das realidades locais rumo à construção de uma sociedade sustentável e socialmente justa.



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