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Economia Circular para o Enfrentamento da Emergência Climática

O que é economia circular e o que ela tem a ver com a emergência climática?

Nas últimas décadas, pesquisadores e cientistas vêm notificando sobre a importância de práticas e estratégias sustentáveis para reduzir os impactos das mudanças climáticas. Tentativas de estabelecer ações mais concretas e de evidenciar a urgência de ações para combater as mudanças climáticas foram levantadas em pautas na Conferência Rio 92, em 1997 no protocolo de Kyoto e no acordo de Paris em 2015. Recentemente, esse tema ficou ainda mais evidente devido ao forte consenso de que a velocidade das mudanças climáticas está aumentando e, grande parte dessa mudança se deve às atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis, o desmatamento e a agricultura, o que resultará em um aumento de 2.5 °C até 2100, aproximadamente.

Mudanças nos padrões de precipitação como chuvas mais intensas e prolongadas, ondas de calor e frio em regiões que não costumavam acontecer, rápido derretimento das calotas polares, acidificação dos oceanos e contínuo aumento da concentração de gases do efeito estufa (GEE) na atmosfera são exemplos de cenários que evidenciam a necessidade de práticas mais sustentáveis e de estratégias para combater os efeitos das mudanças climáticas.


Figura 1: Consequência do alastramento de incêndios no pantanal devido situação incomum de extrema seca. Fonte: (DW Brasil, 2020)

Economia circular como estratégia para reduzir as emissões de gases de efeito estufa

De acordo com o “The circularity Gap (2021)”, se mantivermos o atual modelo linear de mercado cerca de 65 bilhões de toneladas de GEE será emitido em 2030. Essa projeção só enfatiza a urgência de mudança do atual modelo de mercado para um modelo mais sustentável para que seja possível enfrentarmos as causas e os efeitos das mudanças climáticas. Dessa forma, para lidar com as mudanças climáticas é necessário uma total transformação nos sistemas de energia, alimentação, centros urbanos e, produção e consumo.

Entre as atuais estratégias discutidas para reduzir as emissões de gases poluentes, a economia circular vem se destacando entre os principais planos para lidar com a emergência climática. Esse modelo poderá ajudar no combate às mudanças climáticas através dos seus pilares de eliminação de resíduos e poluição; princípio da produção, manter produtos e materiais em uso e, da regeneração de sistemas naturais. Esses pilares são focados principalmente em substituir o conceito “fim de vida" caracterizado pela atual economia linear para um conceito em ciclos, através da redução, reutilização, reciclagem e recuperação de materiais em processos de produção/ distribuição e consumo.

Atualmente, cerca de 70% dos GEE emitidos durante o ciclo de vida de um produto estão vinculados com as fases de manuseio e uso de materiais(The Circularity Gap, 2021) . Assim, ao aplicar estratégias circulares na interseção de materiais e nos pontos críticos de emissões, é possível aumentara retenção de valor, reduzir o consumo excessivo e, consequentemente, reduzira emissão de GEE. A economia circular garante que com menos insumos de material e menos emissões, é possível ter o mesmo produto e serviços.

Ainda, de acordo com o “The Circularity Gap (2021)”, percebe-se que a economia circular tem o poder de reduzir as emissões globais de GEE em 39% e reduzir o uso de recursos naturais em 28%, o que irá contribuir para manter o aumento de temperatura global abaixo de 2°C.

Entre os benefícios de um modelo circular, pode-se destacar:

  • Redução da emissão de poluentes e resíduos ao meio ambiente;

  • Reaproveitamento de matéria-prima que seria descartada (processo de reciclagem);

  • Revisão de processos produtivos para alinhamento com o meio ambiente;

  • Redução dos impactos na extração dos seus recursos naturais;

  • Aumento da eficiência e produtividade.

Assim, mantendo insumos em um ciclo, a economia circular oferece uma alternativa mais limpa, cria valor, melhora a resiliência local e incentiva inovações tecnológicas a fim de reduzir a poluição .


Figura 2: Diagrama da Economia circular. Fonte: (Ellen MacArthur Foundation, 2013).

De acordo com a Fundação Ellen MacArthur, o sistema pode ser dividido em dois ciclos: o ciclo técnico e o ciclo biológico. O diagrama acima ilustra como Economia Circular divide o uso dos materiais em dois tipos de fluxos: o de nutrientes biológicos, cujo destino deve ser a reincorporação nos ciclos bio-geo-químicos e constituição de novo capital natural; e o de nutrientes técnicos que devem ser projetados para circular com o máximo deagregação de valor em ciclos sucessivos, atravésdo reuso, reciclagem e reaproveitamento de materiais.

Assim, ao eliminar o desperdício, a economia circular irá contribuir para reduzir as emissões de carbono e gases responsáveis pelo efeito estufa e a poluição. Ao manter produtos e materiais em uso, reduz-se a necessidade de extrair mais recursos naturais e de produzir novos materiais e produtos, e, consequentemente, reduz-se a geração de gases de efeito estufa ao longo da cadeia de produção. Finalmente, ao regenerar sistemas naturais, é possível armazenar e reter carbono no solo, ajudando a melhorar a saúde do solo. Por exemplo, ao aplicar esse modelo na agricultura é esperado uma redução de até 49% nas emissões (equivalente a 5,6 bilhões de toneladas de CO2) em 2050 (Ellen MacArthurFoundation, 2019).

Figura 3: Benefícios econômicos de uma economia circular. Fonte: McGinty, D. (2020)

Cidades Circulares

Você agora deve estar se perguntando: Já entendi que a economia circular é essencial para o enfrentamento à emergência climática, mas quais são os benefícios econômicos e sociais nisso?

Bom, além de todos os outros benefícios que já pontuamos, soma-se a eles os seguintes motivadores para a transição da economia linearà circular:

  1. A redução de custos e maior geração de valor com ganho de competitividade e oportunidades para os negócios;

  2. Novas fontes para investimentos, pois a economia circular já tem atraído investidores para o desenvolvimento e inovação tecnológica;

  3. Maior resiliência e colaboração, uma vez que mantém os materiais por mais tempo no sistema com ciclos reversos, reduzindo a dependência da disponibilidade de matérias-primas; e

  4. Geração de emprego, porque uma economia baseada em fechar o ciclo do produto necessita de reparos, manutenção, remanufatura e atualização o que demanda mais mão de obra, além da geração de novos empregos verdes frutos da transição.


Figura 4: Modelo de interações para uma cidade circular. Fonte: (Ideia Circular, 2021).

Nos centros urbanos, por exemplo, ao eliminar resíduos provenientes de edifícios e construção através de um melhor compartilhamento de espaços para estudo ou trabalho ou através da reutilização e reciclagem de materiais de construção, é possível reduzir asemissões de materiais de construção em 38% até 2050. Atualmente, é usado cerca de 35-45% mais de metal do que realmente é necessário (Ellen MacArthur Foundation, 2019). Assim, ao aplicar o pilar de eliminação de resíduos e poluição pode-se reintegrar os materiais excedentes ao ciclo, reduzindo a necessidade de mais energia e recursos naturais e, consequentemente, reduzindo a carga de carbono emitida durante a exploração e produção de novos componentes. Da mesma forma, ao mudar para práticas de produção regenerativas na agricultura, eliminando o desperdício de alimentos e reutilizando ingredientes ao longo da cadeia dos produtos alimentícios, seria possível reduzir as emissões do sistema de produção alimentar pela metade até 2050.

A implementação de uma economia circular nas cidades pode trazer enormes benefícios econômicos, sociais e ambientais. Sendo possível reduzir o congestionamento, eliminar o desperdício e reduzir os custos, uma maior produtividade econômica e um novo crescimento permitirão que as cidades prosperem e novas oportunidades de negócios apoiarão o desenvolvimento de habilidades e empregos.

Figura 5: Cidades circulares. Fonte: (Ideia Circular, 2021)

E, após tudo isso que você está lendo nesse artigo, como poderíamos contribuir com ações da economia circular? Bem, você pode reduzir o consumo de produtos descartáveis que não são reciclados ou reaproveitados, consumir melhor dentro do que é possível para o seu orçamento e/ou fazer a compostagem doméstica dos resíduos orgânicos produzidos na sua casa, hoje existem modelos de caixas de compostagem muito acessíveis que podem ser feitos por você ou comprados em lojas. Essas são algumas dicas, mas você pode procurar outras ações e implementar no seu dia a dia. O importante é se movimentar e através da ação impulsionar novas pessoas a pensar e mudar.


Referências


Circle Economy - The Circularity Gap Report - Circle Economy. Editora Ruparo, Amsterdam, Países Baixos, 2021. 72 p. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1MP7EhRU-N8n1S3zpzqlshNWxqFR2hznd/edit


Confederação Nacional da Indústria. Economia circular: oportunidades e desafios para a indústria brasileira. Brasília : CNI, 2018. 64 p. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/5532421/mod_resource/content/1/Economia


DW Brasil. (2020,09 14). Fogo avança sobre o Pantanal e mata animais ameaçados. DW: made for minds. https://p.dw.com/p/3iQli


Ideia Circular. O papel das cidades na economia circular. 17 de Agosto de 2021. Disponível em: https://www.ideiacircular.com/cidades-na-economia-circular/


Ellen MacArthur Foundation. Completing the Picture: How the Circular Economy TacklesClimate Change. 2019. Disponível em: www.ellenmacarthurfoundation.org/publications


Ellen MacArthurFoundation.Towards the circular economy. Vol. 1: an economic and business rationale for an accelerated transition. 2013. Disponível em: https://emf.thirdlight.com/link/x8ay372a3r11-k6775n/@/preview/1?o


McGinty, D. Como construir uma economia circular. WRI Brasil. 24 de Agosto de 2020. Disponível em: https://wribrasil.org.br/pt/blog/como-construir-uma-economia-circular


Sobre as autoras:


Luisa Almeida é formada em Engenharia Agrícola e Ambiental pela Universidade Federal Fluminense, Niterói, com um mestrado em Engenharia ambiental com foco em tecnologias ambientais pela Universidade de Debrecen, Hungria. Ao longo da graduação, participou de projetos relacionados à energia alternativa, e realizou estágio na Embrapa, com foco na identificação e restauração de áreas degradadas. Com um grande interesse em identificar alternativas para reduzir os impactos ao meio ambiente e das mudanças climáticas causadas por ações antropogênicas, conseguiu uma bolsa de estudo para continuar seus estudos na área de meio ambiente, onde desenvolveu pesquisas na área de economia circular, mudanças climáticas e sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. LinkedIn.


Nicole Bavaresco é Engenheira Ambiental e Sanitarista pela Universidade Federal de Santa Maria, trabalha nas áreas de sustentabilidade ambiental e políticas públicas. Além disso, é consultora credenciada Lixo Zero e mestranda no programa da Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais (FLACSO) em Estado, Governo e Políticas Públicas, onde vem pesquisando sobrea política de mudança climática no estado de Santa Catarina. Atualmente trabalha em tecnologia de impacto social para a agricultura Plataforma ALIMENTO DE ORIGEM na Agência de Desenvolvimento do Médio Alto Uruguai-RS (ADMAU). LinkedIn.


Luisa Almeida e Nicole Bavaresco participaram da 6ª edição do Curso YCL no segundo semestre de 2021 como bolsistas. As referências e opiniões expressas no artigo são de responsabilidade das autoras.

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