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Não há justiça climática sem justiça racial: impactos climáticos têm cor, gênero e endereço.


Meus ancestrais nunca estiveram aqui onde estou. Digo, não geograficamente, mas online em uma rede potente. Sou uma mulher negra, ambientalista e periférica nascida e criada no caos e no amor que o Rio de Janeiro oferece. Tecer palavras nessa teia de informações é como dar voz à todos que vieram antes de mim, que lutaram incessantemente contra a invisibilização dos nossos corpos com cor, gênero e endereço social definidos e que sofreram, e sofrem, na pele as consequências ambientais das ações antrópicas, mais especificamente as ações das elites brancas. Colonizaram minha terra, mas não meus pensamentos e ações, então estou presente para dizer que não há justiça climática sem justiça racial. Mudanças climáticas são transformações naturais que ocorrem no planeta, porém, as interferências humanas pautadas em relações consumistas, predatórias e exacerbadas potencializaram em nível catastrófico o ritmo dessas mudanças no clima. Após a industrialização entramos na era do “Antropoceno”, voltados para o ego, não para o eco. Separamos os seres humanos do restante da natureza e nos colocamos em um papel de conquistadores com capacidade superior e elevada em relação a outras espécies. É fato que esse pensamento aumenta a dificuldade de ser parte do problema e afasta da responsabilidade da solução, mas será que a origem desse pensamento partiu mesmo de todos os seres humanos? Ou apenas de uma branquitude que se considera, até hoje em dia, detentora de tudo e todos? Nosso sistema enxerga o meio ambiente como uma máquina de serviços ecossistêmicos que precisam ser explorados e os processos de colonização e escravização de povos e culturas ocorreram para dar funcionamento a esse sistema. As engrenagens são complexas, principalmente do lado em que estou, já que a noção de raça foi criada como ferramenta de subalternização das pessoas não-brancas para concretizar a lógica de civilização e de progresso. E o racismo permeia a sociedade como forma de diferenciar as humanidades plurais de uma forma dilaceradora, sustentando o sistema explorador e potencializando impactos ambientais, dentre eles, os impactos climáticos. Ao cruzar minha esquina consigo enxergar o racismo que expõe a vulnerabilidade das populações negras, quilombolas, indígenas, ribeirinhas e outras tantas pelo Brasil. E escurece (para ir em contramão ao termo “esclarecer”) que não há enfrentamento climático de verdade enquanto não houver o acolhimento e participação do pensamento antirracista como protagonista das políticas e dos modelos ambientais. As populações periféricas vivenciam problemas estruturais causados pela desigualdade racial e histórica advindas do nosso sistema exploratório, e as mudanças climáticas intensificam esses problemas e podem produzir outras formas de racismo como o “racismo ambiental” ao excluir povos no acesso às medidas de mitigação, adaptação e regeneração aos impactos como o restante da sociedade. Por conta desse pensamento surgiu o conceito e o movimento de Justiça Climática, que dialoga com os direitos humanos, com a sensação de pertencimento, com território, grupos marginalizados na sociedade, com os gêneros mais afetados e claro, com representatividade, já que a justiça climática perpassa o padrão de impactos ambientais que sentimos durante nossa (re)existência, fala também sobre a falta de representatividade que nós, mulheres e homens negros, temos em eventos de tomada de decisões sobre território e clima. Isso reflete diretamente a formulação das políticas climáticas. Onde estamos nessas pautas?

Realmente há ações ativas, constantes e provocativas nos colocando como protagonistas ou estamos apenas sendo referenciados e teorizados nas agendas climáticas para lembrarmos que somos os mais afetados? Não preciso ler relatórios para saber sobre o padrão de deslizamentos de terra na minha rua, nem sobre o genocídio de povos pretos e indígenas no meu bairro, nem sobre o ecocídio na Mata Atlântica da minha região, das enchentes, ondas de calor, ou das mortes por COVID da população do quilombo Dona Bilina. É a minha realidade, não sou assintomática: eu sinto tudo e sinto muito. Precisamos megafonizar a voz de quem resiste. E estamos aqui com a cor, gênero e endereço que são alvos desse sistema, gritando que as vidas negras importam não só quando morremos, mas em vida também. Queremos ser agentes de um mundo com menos emissões e com mais ações regenerativas, e não apenas sermos resultados de impactos ou metas.


O exercício crítico de representatividade precisa começar agora, urge a necessidade de termos um olhar holístico para co-criar essas agendas, as políticas climáticas e soluções inovadoras enquanto futuros líderes climáticos. A injustiça climática impacta a vida da população periférica das cidades, campos, florestas e beira de rios. Qualquer noticiário que aborde as múltiplas realidades brasileiras nos provoca e convoca à impossibilidade de discutir uma perspectiva sobre futuro sem a participação periférica, dos homens e mulheres negras, da população quilombola, das comunidades tradicionais e de outros grupos marginalizados e vulnerabilizados - e não vulneráveis, por si só, porque resistimos até aqui e agora com muita potência.


Não há mecanismo de mitigação e adaptação se não houver discussão sobre território, desigualdade racial e desenvolvimento sustentável. Seja combatendo a atual pandemia da COVID-19, que atinge de forma mais brutal as populações tradicionais, ou escrevendo um artigo para uma rede tão diversa, inclusiva e potente como a Youth Climate Leaders. Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, formulados em 2015 por mais de 190 países signatários da ONU, fazem parte Agenda 2030, que pretende não deixar ninguém para trás. Mas racismo estrutural não foi considerado especificamente em nenhum dos seus objetivos e isso é um erro grave, já que esse é um fator fundante e substancial nas sociedades ao redor do mundo e enquanto não incorporarmos a perspectiva antirracista em nossos planejamentos estratégicos e institucionais, seguiremos reproduzindo estruturas racistas. A Agenda 2030 reflete uma realidade que talvez não seja a nossa, minha favela corre mais risco de sumir por conta das mudanças climáticas, então se torna evidente a necessidade de incluí-la em políticas públicas que formem uma sociedade mais sustentável com estruturas resilientes.


Ousam discutir a elevação da temperatura e tratados internacionais sem a participação de mulheres negras, que são 27% da população brasileira, ou seja, o maior grupo populacional do país. Ousam falar sobre extinção de espécies sem povos ribeirinhos e indígenas. Ousam decidir sobre temas climáticos sem ao menos refletir sobre privilégios. O debate climático e o racial coexistem, basta olhar que a cor das pessoas que moram nas favelas, periferias, nas margens de rios, represas e lixões são as mesmas cores das pessoas levadas por enchentes, soterrados por deslizamentos de terra, desmoronamentos e mortos por problemas da crise sanitária, hídrica e ambiental que vivemos. A formulação de políticas ambientais precisa de um recorte racial e de uma tradução acessível em comunidades vulnerabilizadas, pois as consequências mostram que os eventos climáticos não são problemas que as próximas gerações vão sentir, são problemas que estamos sentindo agora e precisamos falar sobre isso. Saberes ancestrais e tradicionais também contribuem para um futuro mais sustentável. Parem de nos matar e nos deixem falar, o clima também é sobre nós.


Sobre a autora: Carolina de Brito Maciel


Mulher negra e periférica da Zona Oeste do Rio de Janeiro, Carolina Maciel é bióloga, gestora ambiental e pesquisadora de divulgação científico-cultural. Curiosa, diagnostica lacunas ambientais e propõe soluções ágeis, sistêmicas e empáticas. É apaixonada pelos ciclos naturais, por ativismo e por ações regenerativas planetárias, seja um evento global reunindo jovens pelo clima, seja passar um tempo em sua horta. Acredita no poder do propósito, desenvolve e planeja textos e atividades de compartilhamento de conhecimento sob diferentes pautas ambientais e sociais tanto para o setor empresarial quanto socioambiental e possui ampla experiência em mobilização de comunidades, educação ambiental, sustentabilidade, ecologia e gestão de projetos. Reverbera que podemos adiar o fim do mundo baseados em soluções da natureza e dos povos originários.


Carolina Maciel participou da 5ª edição do Curso YCL no primeiro semestre de 2021 como bolsista. As referências e opiniões expressas no artigo são de responsabilidade da autora.

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