O futuro sobre a mesa: Economia e meio ambiente no combate à crise climática

Updated: Aug 20

Por Thiago Bopp Resnitzky

Economia ou meio ambiente? Eis a questão. E o ser humano faz guerra para respondê-la. Mais vale preservar a natureza ou crescer o grande bolo da economia? Se a humanidade não teve maturidade para se desprender da dicotomia, a emergência climática chutou nossas portas mostrando que se não veio por decência, a mudança de costumes e estratégias humanas começará a vir por necessidade. Num cenário de seríssimas alterações climáticas globais, articulações multifacetadas são mais importantes do que nunca. É chegada a hora de ambientalistas e economistas sentarem às mesmas mesas.

A cada ano, metade da massa da população humana da Terra sai em forma de poeira do deserto do Saara. Grande parte deposita-se na floresta amazônica brasileira. A poeira do deserto, que cruza o Atlântico de carona nas correntes aéreas, fertiliza a floresta, que depende do fósforo saariano para prosperar. A floresta por sua vez, funciona como uma bomba d’água, que pela evapotranspiração devolve para o ar a água que absorve. Essa água, integra novamente as correntes aéreas e chove no sudeste do país, irrigando produções agrícolas e garantindo segurança alimentar e econômica a nível nacional.

Imagem artística construída pela NASA para mostrar o fluxo de poeira do Saara vindo para as Américas.

Por esse recorte, percebe-se quão interligados estão os sistemas climático e econômico. Como poderiam, nesse contexto, tomadores de decisão integrar uma tão rasa disputa entre “abraçadores de árvores” e radicais pelo desenvolvimento clássico? Para além de flutuações de mercado e variáveis mais tradicionais, é necessário que a economia olhe para fatores de risco, como epidemias e choques climáticos e para as dimensões da pobreza extrema. É o que propõe Jeffrey Sachs, economista chefe do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Columbia, em sua obra “O Fim da Pobreza”.

Chamada por ele de Economia Clínica, a inovadora abordagem é inspirada pelo trabalho de sua esposa Sonia Sachs, que é médica pediatra. Ao olhar para a economia como um médico olha para seu paciente, o analista deve colocar o seu pensamento à altura da complexa realidade que observa, enxergando a integração dos sistemas: econômico, social, geopolítico, climático, etc. Da mesma forma, um bom médico olha para circulação, respiração, digestão e outros aspectos do organismo do paciente de que cuida. Para isso, é necessário que a economia estreite cada vez mais os diálogos com profissionais de outras áreas.

Na Economia do Meio Ambiente, descrevem-se externalidades como situações em que a atividade de uns causam perdas no bem-estar de outros, sem que haja compensações. Uma observação holística permite concluir que a economia global, a agregação das formas com que cada população humana se organiza para gerar e trocar valores, é o problema central que desencadeia a crise ambiental contemporânea. São custos sociais que cada vez mais se aproximam do estado de impagáveis e levam o planeta rapidamente aos temidos pontos de não-retorno.

Um exemplo bastante iminente de externalidade são as emissões de gases de efeitos estufa, principalmente o CO2. Eles são liberados pela maioria das atividades produtivas e têm propriedades químicas de retenção de calor, justamente como uma estufa. A ação humana, por comportamentos como o uso extensivo de combustíveis fósseis e o mal uso da terra, fez com que a concentração desse tipo de gases na atmosfera batesse recordes geológicos.

Segundo o IPCC, órgão científico intergovernamental de pesquisa em mudanças climáticas, já houve um aumento maior que 1ºC na temperatura média terrestre em relação aos níveis pré-industriais. As simulações, bastante precisas, apontam para um aumento de mais de 4ºC até 2100, caso tudo permaneça como está (Business as Usual). Esses aumentos desequilibram gravemente os serviços ecossistêmicos de regulação climática, e a tendência é que isso piore.

Fonte: NASA | Por The New York Times

Imagine uma realidade de baixíssima frequência de chuvas e aumento de suas intensidades. Secas severas e inundações nas metrópoles brasileiras. Riscos constantes de aparecimento de novas doenças. Degradação de terras agricultáveis. Perdas retroalimentadas de biomas inteiros e seus serviços ecossistêmicos. Rios voadores amazônicos ameaçados. Quem serão os primeiros afetados? Já estão sendo: as populações vulneráveis. A crise ambiental, além de tudo, tende fortemente a reforçar as desigualdades sociais.

Curva de Kuznets

Em 1991, se popularizou a curva ambiental de Simon Kuznets, Nobel em economia duas décadas antes. Sua teoria se baseava na crença de que a partir de determinado momento as disrupções tecnológicas seriam capazes de criar serviços industriais não poluentes e reverter as externalidades ambientais geradas até então. A degradação seria um processo necessário para o desenvolvimento econômico. Uma vez desenvolvidas, as nações teriam, segundo ele, a capacidade de reversão das suas faltas para com o mundo.

Hoje, economistas e ambientalistas apontam alguns equívocos de Kuznets, como o fato de não ter previsto a transferência de indústrias poluidoras para países pobres e as possibilidades de irreversibilidade de certos tipos de dano ambiental. Apesar disso, há uma vasta gama de soluções que podem ser implementadas para amenizar as transformações ambientais vigentes e seus impactos negativos. Com grandes problemas, vêm grandes responsabilidades: será que vai dar para nos adequarmos ao “U” invertido de Kuznets a tempo?

A valoração ambiental, tanto de serviços ecossistêmicos quanto de externalidades, é uma das importantes chaves que devem virar para viabilizar a reversão dos transtornos climáticos. Os mercados de carbono, dependentes de mensurações complexas, foram o principal assunto da última Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP25) e permitem que, cada vez mais, taxações e incentivos econômicos estrututurem uma estratégia de diminuição global de emissões de efeito estufa.

A concretude, integração e transparência dos processos e dados, facilitará as transições energética (de fósseis para renováveis), alimentar, e tantas outras. Soluções baseadas na natureza, desenvolvimento tecnológico, negócios socioambientais e a estruturação de uma governança global capaz de entender e atuar diante da integração dos sistemas de que o ser humano faz parte, serão o cerne da guinada de transformação sistêmica da qual economia e sociedade tanto precisam. Chegou a hora de economistas e ambientalistas sentarem às mesmas mesas.

Artigo escrito por:

Thiago Bopp Resnitzky, estudante de economia, membro do Youth Climate Leaders (YCL), empreendedor socioambiental e entusiasta de ciência de dados. Escreve sobre soluções para a crise climática e outros assuntos.

Linkedin: https://www.linkedin.com/in/thiago-bopp/

Medium: https://medium.com/@thiagobres




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