Relato de uma nova mãe do Clima, por Clarissa Canova


Olá, eu sou a Clarissa, diretora de marketing do YCL. Iniciei minha jornada profissional na área da educação, fiz curso de magistério integrado ao Ensino Médio. Comecei a trabalhar aos 15 anos e lidava com as crianças em idade pré-escolar, com um ambiente constantemente renovado e sempre enriquecido por sonhos de futuro. Foi maravilhoso reconhecer em mim as qualidades que vi em tantas mestras ao longo dos anos, como a sensibilidade, a empatia, ou a vontade de renovação que cada criança desperta na gente quando descobre algo novo. O meu “algo novo”, depois daquela experiência, veio com a faculdade e o início de uma carreira em Marketing.


Mas foi em 2007 que eu me apaixonei pela vida de agência de publicidade. Até então eu tinha estagiado em diversos tipos de empresas de setores variados. No meio publicitário, vi a necessidade de lidar com um universo predominantemente masculino – e, muitas vezes, machista –, mas consegui crescer pessoal e profissionalmente para me tornar uma Diretora. Reconheço que boa parte de minhas conquistas vem de meu próprio esforço, mas sou sempre muito grata a todos que me acompanharam e me fortaleceram. Além das pessoas que fazem parte da minha vida por conta de outras redes, esse meio da Publicidade me trouxe meu marido – e, por consequência, nossa família – e muitos amigos. Foi por esse meio que solidifiquei minha carreira, tive recursos para fazer viagens e ir a bons restaurantes, entre muitas outras coisas que contribuem para minha bagagem pessoal e profissional. Portanto, é com gratidão que olho para os 12 anos que passei em agências (até 2019), pois me ajudaram a construir quem eu sou e me abriram muitas portas.


Mas devo reconhecer também que trabalhar nesse meio teve um lado bem desafiador. O estresse decorrente das muitas horas de trabalho por dia me desgastou fisicamente e emocionalmente. Tive uma úlcera, uns quilinhos a mais e muitas vezes energia de menos. Depois de um tempo, eu não me identificava mais com aquele modus operandi; particularmente, passei a me sentir mal em ver imensas quantidades de recursos sendo despendidos para veicular propagandas sobre produtos que prejudicam o meio ambiente, para persuadir uma minoria da população, às custas do estresse dos profissionais que faziam e refaziam conteúdo para redes sociais, por exemplo. Sei que há quem se identifique com essa maneira de agir, vendo os pontos positivos no lado mais pesado da balança, mas eu... naquele momento me sentia vendida.


Por vezes, eu precisava encontrar meios de manter maior interesse no trabalho quando, na verdade, o que eu queria era questionar, propor novas formas, recriar aquela realidade. Mas me faltava coragem, talvez por não ter acumulado tanto dinheiro quanto gostaria, ou por não ver maneiras de me reinventar para estar nesse mundo que sempre vislumbrei. E, claro, em boa parte isso se devia ao meu ego! Eu havia me tornado diretora, era a realização de minha principal meta! “Como alguém desistiria de ser Diretora em uma agência Global no país do desemprego e do machismo?” “O que eu iria fazer da vida?” “Que tipo de emprego eu iria arrumar depois?” Eram muitas as perguntas que eu mesma fazia cada vez que eu pensava em mudar de rumo.


E esses questionamentos não vinham da agência em que eu trabalhava, nem dos colegas, nem de amigos. São questões que a gente se impõe por conta da nossa cultura, talvez. Nós, mulheres, entendemos que é preciso ter a vida sob controle, que para mostrar nosso valor é preciso ter horas extras acumuladas, que precisamos ter bens que indiquem que estamos bem, que precisamos ter... ter... ter... e isso desgasta e consome.


E então, em meio aos meus questionamentos, fui presenteada com uma gravidez maravilhosa. Era uma realização pessoal tão grande, que eu me sentia abençoada. Eu irradiava felicidade e era retribuída com a generosidade de todos ao meu redor (prova disso são os cinco chás de bebê que tivemos). Eu me sentia linda e plena na maioria dos dias. A gravidez me trouxe ainda a coragem que me faltava para dar novas respostas àqueles questionamentos, àquela insatisfação. Afinal, como eu poderia me contentar em não ser o meu melhor para meu filho?


Enquanto eu me preparava para dar à luz, o bebê era quem iluminava minhas decisões. Eu passei os 9 meses de gestação revendo a minha vida como filme na minha cabeça. Pude fazer uma viagem internacional naquele ano e ficar duas semanas praticamente sozinha, refletindo muito do mundo que queria para aquele serzinho que crescia dentro de mim e agradecendo tudo o que havia conquistado e aprendido até ali. Lembro que assistia ao pôr do sol muitas vezes no lugar onde estava, por uma janela de frente para as montanhas, e pensava: “é isso; é só isso… basta-nos a natureza, a harmonia, a saúde, a vida e o amor.”


Embora eu sentisse essa simplicidade no horizonte, não era simples me transformar. Passei os meses finais da gravidez trabalhando muito, sentindo dores na barriga cada vez que tinha um estresse muito forte, tendo algumas crises de choro no travesseiro... mas me esforçava para termos nossos momentos: colocava um mantra, conversava com ele ainda dentro da minha barriga, explicava o que tinha acontecido, tentando nos acalmar e me preparar.


Passei os meses da licença maternidade embriagada daquele amor, completamente tomada (sentimentalmente e fisicamente) por aquele serzinho. Não teria como ser diferente, não teria como deixá-lo e voltar para o trabalho. Por mais que me doesse (e sempre que a gente tem que tomar uma decisão, parece que dói ainda mais), eu precisava aceitar o fluxo, o processo que tinha me proposto viver. Consegui fazer um acordo na agência e tive a possibilidade de ficar mais alguns meses com um dinheirinho no bolso e a tranquilidade de poder ser “só” mãe.


Escrevendo isso hoje, eu ainda tenho que parar e me acolher, respirar. Não foi nada fácil tomar essa decisão “temporariamente definitiva”, mas essa é a graça da vida: correr atrás do que a gente acredita com todas as forças, mesmo que saia da zona de conforto para viver essa nova verdade. Para conseguir, me propus a estudar um pouco mais alguns temas que sempre foram do meu interesse, como sustentabilidade e food innovation. Consegui refletir sobre esses temas ao longo de um ano, relacionando-os à minha experiência profissional e ao aprendizado de ser uma mãe. Entendi que precisava de três coisas para meu novo momento de trabalho: 1) flexibilidade nos horários de trabalho para seguir cuidando do filhote; 2) propósito/verdade - não poderia ser uma farsa para o meu filho e nem mais para mim, eu precisava trabalhar com algo que genuinamente acredito: e 3) apoio: esse novo lugar/pessoas do trabalho precisariam entender as mães e simpatizar com a situação.


Em meio a algumas conversas, tive a sorte/sincronicidade de encontrar a Cássia Moraes. Nossa empatia foi mútua, e logo combinamos de começar essa jornada no YCL juntas. Hoje, como Head de Marketing e Parcerias no YCL há mais de um ano, posso dizer que sou uma Mãe do Clima, superando os desafios diários por ter de gerenciar casa, comida, filho e trabalho em meio a uma pandemia, e agradecida com o apoio do meu marido e família.


E assim, meu coração se enche de alegria cada vez que conheço uma jovem ou um jovem que está prestes a entrar para nossa Rede e ouço sua história, sua motivação; cada vez que compartilho o dia a dia (mesmo que atribulado) com meus colegas de trabalho tão inspiradores; ou cada vez que converso com alguma empresa parceira e ouço algum projeto novo que já está fazendo alguma mudança positiva no mundo. Hoje, me encontro de novo num ambiente constantemente renovado e sempre enriquecido por sonhos de futuro.


Tenho então a certeza de que estou no caminho certo: o meu trabalho está alinhado com meu projeto de vida sustentável, por meio de um ambiente inovador, colaborativo, empático e que busca um bom futuro para todos, inclusive para meu filho e para as crianças que hoje também estejam em idade pré-escolar. Com base nesse relato da minha experiência, aceno com uma das bandeiras que carrego dentro do YCL: que possamos criar mais oportunidades para que outras mães possam ter uma carreira mais flexível, mais empática e que possamos acreditar que somos capazes e merecedoras disso!


Quando nós, mães, olhamos para esses serezinhos cheios de luz que são nossos filhos, e olhamos para o Planeta como está, naturalmente nos transformamos em “leoas”. “Fight Like a Mother”, eu li uma vez… e aqui cabe bem! Seguindo a proposta dessa curadoria, deixo um convite, no qual me incluo: que tal se nós contribuirmos para que esse campo emergente sobre as mudanças climáticas seja, desde o começo, mais inclusivo, empático e construtivo? O que podemos trazer da nossa bagagem e ressignificar em contribuições culturais e humanizantes?


Que a gente possa responder a esse convite transformando o que está à nossa volta. Que a liderança seja despertada em nós mesmas, por nós mesmas. E que nossas sombras, nossos medos, e as verdades que nos foram impostas não nos impeçam de seguir em frente; que não tirem nossa força. Não é, não foi e nunca será fácil tornar-se vulnerável para estudar, aprender, reaprender, mas tenhamos a coragem de fazê-lo na nossa empresa, organização ou em um recomeço de carreira. Sejamos nossa rede de apoio, sejamos nossas novas oportunidades. Sejamos mestras umas das outras. Feliz Mês para as Mães do Clima, feliz mês para nós mulheres conscientes que empoderam umas às outras. <3

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