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Alimentação para o clima X clima para alimentação: desafio planetário e urgente.

Atualizado: 24 de abr. de 2022

As práticas de produção, distribuição e consumo de alimentos, incluindo as mudanças no uso da terra ligadas à agropecuária, são atribuídas atualmente, um quarto de todas as emissões de gases de efeito estufa (GEE) que causam as mudanças climáticas.

A crescente população mundial, que se aproxima de 8 bilhões de habitantes, está diante, hoje, de um de seus maiores desafios: promover a sustentabilidade dos sistemas alimentares para garantir a segurança alimentar (termo relacionado a abastecimento de alimentos e representa o direito de todos no acesso a alimentos em qualidade e quantidade suficientes.) e a resiliência climática, evitando as ameaças dos cenários de impactos mais críticos já projetados - de acordo com o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) - que acarretariam em escassez de alimentos e agravamento da situação de pobreza no mundo, caso a humanidade fracasse na luta contra as mudanças do clima.

Se os cenários já se mostravam alarmantes alguns anos atrás, agora, no mundo pandêmico, com o agravamento da insegurança alimentar, devemos admitir que todo o planeta competirá contra o tempo, para evitar o acirramento da fome causada pela emergência climática.

O consenso geral é de que seja necessário aumentar a produção de alimentos em até 70% para alimentar a humanidade em 2050 e, simultaneamente à perspectiva de aumento da produção de alimentos no mundo, é urgente que se reduza as emissões de gases do efeito estuda (GEE) da produção agropecuária e pela mudança do uso da terra, que no Brasil, se somadas, são responsáveis por mais de 70% das emissões de carbono.

A preocupação aumenta quando é constatado que a degradação florestal, atingiu índices recordes no país. Consequência da expansão de atividades insustentáveis, como mineração, pecuária, conversão do solo para desempenho de outras atividades e extrativismos nocivos aos ecossistemas, principalmente no bioma Amazônico. Os serviços ambientais, como a capacidade do sequestro de carbono pela biomassa florestal e regulação dos ciclos hídricos encontram-se ameaçados e é urgente uma mobilização, para além da definição de metas de mitigação de impactos do clima, que assegure uma transformação nos modos de se produzir alimentos no Brasil.

Um relatório publicado pelo EAT–Lancet Commission, em 2019, traz uma ótima notícia: os alimentos são a alavanca mais poderosa para otimizar a saúde humana e a sustentabilidade ambiental na Terra. O documento, escrito por mais de 37 cientistas em saúde, sustentabilidade ambiental, sistemas alimentares, economia e governança política, conclui que é possível alimentara crescente população mundial, com uma dieta sustentável e saudável sem causar mais danos ao planeta, mas isso exigirá mudanças significativas.

Para resolver as lacunas existentes entre a produção de alimentos e a redução das emissões de carbono, diversas soluções tem sido pensadas e aprimoradas visando a reforma dos sistemas alimentares, entre elas:

  • Substituição das práticas de produção ultrapassadas e insustentáveis do ponto de vista ambiental, com promoção dos sistemas agroflorestais, que mantenham os serviços ambientais e aliem os ganhos de produtividades à proteção dos ecossistemas naturais, através da conservação e restauração;

  • Aperfeiçoamento das tecnologias para aumentar a eficiência na produção dos alimentos, sem a expansão de terras;

  • Redução da perda e desperdício de resíduos;

  • Fortalecimento de setores com potencial para contribuir com a redução da pressão sobre setores específicos e altamente impactantes do clima, como a pecuária bovina: estímulo a produção sustentável de peixes através da pesca artesanal e aquicultura com sistemas de recirculação de água, por exemplo;

  • Estímulo ao consumo de alimentos mais saudáveis e sustentáveis, com conscientização da sociedade, para incentivar o consumo responsável.

É importante ressaltar o papel primordial dos governos locais e nacionais, bem como a cooperação entre todas as esferas, na elaboração, implementação e avaliação de programas e estratégias promotoras da sustentabilidade dos sistemas alimentares.

As ações dos governos devem ser firmes para colocar em prática a transição dos sistemas alimentares, que certamente enfrentarão muita resistência dos modelos tradicionais e insustentáveis de agricultura. São fundamentais os investimentos em educação e a viabilização de recursos para pesquisa e inovação, a fim de disponibilizar sempre o melhor conhecimento científico para preparar e aperfeiçoar as cadeias produtivas da alimentos, no enfrentamento das mudanças do clima. Campanhas de conscientização sobre consumo responsável devem fazer parte do escopo dos acordos e políticas, que capacitarão e guiarão a sociedade rumo a segurança alimentar. Não se pode esquecer, que um dos elos da cadeia de alimentos é o consumidor final, com poder de decisão, capaz de influenciar e contribuir potencialmente para transformar os modos de produção de alimentos. Esforços não devem ser poupados para garantir a justiça ambiental, protegendo povos indígenas, quilombolas e todas as comunidades tradicionais, guardiãs das florestas e dos ambientes naturais. É necessário também fortalecer as políticas públicas para agricultura familiar, de distribuição/acessibilidade de alimentos saudáveis e provenientes de sistemas sustentáveis, garantindo o consumo nas comunidades de produtores, de modo que estes não fiquem restritos e acessíveis apenas a uma pequena parcela da população, fazendo reserva de mercado, como é o caso do acesso a produtos orgânicos em muitas localidades, que possuem preço muito elevado. Para as transformações necessárias nos sistemas alimentares brasileiros, é importante a reconstrução e renovação de todo aparato institucional relacionado às políticas agroalimentares, além do fortalecimento dos instrumentos ambientais de comando e controle, implementação de novas políticas ambientais de integração dos planos de ação climática, envolvendo os setores de interesse - com toda uma contrapartida de políticas sociais, econômicas e regulatórias, trabalhistas, de educação, cultura, turismo, inovação e tecnologia, entre outras. Em todos os setores de atuação, é importante garantir que a mudança ocorra de forma democrática, com participação social, respeitando e considerando as características geográficas, climáticas, culturais e alimentares de cada região do país, ganhando legitimidade e conferindo credibilidade à ação climática, perante a sociedade e aumentando as chances de sucesso dos programas implementados. É essencial a mobilização das comunidades rurais, povos tradicionais, guardiões das florestas, incluindo jovens e mulheres nas conversas sobre o futuro da humanidade.

Ainda temos tempo, mas mesmo considerando as variações locais e de cada país, a transformação dos sistemas alimentares deverá ser radical, por isto, é preciso iniciá-la imediatamente. É desta forma que será possível melhorar hábitos alimentares globais, diminuir os desperdícios e tornar os sistemas produtivos resilientes, possibilitando que uma população de 10 bilhões de pessoas tenha uma dieta saudável e sustentável até 2050.


Referências:


EAT-Lancet Commission on Food, Planet, Health. Summary Report of the Commission Food in The Anthropocene: the EAT-Lancet Commission. Healthy Diets From Sustainable Food Systems. 2019. Disponível em: https://scalingupnutrition.org/wpcontent/uploads/2019/01/Report_Summary_English.pdf

Food and Agriculture Organization of The UnitedNations. The State of Food and Agriculture 2020.

Janet Ranganathan, Richard Waite, Tim Searchinger and Craig Hanson.World Resources Institute. How to Sustainably Feed 10 Billion People by 2050, in 21 Charts. December. 2018.

Mitchell C. Hunter, Richard G. Smith, Meagan E. Schipanski, Lesley W. Atwood, David A.Mortensen, Agriculture in 2050: Recalibrating Targets for Sustainable Intensification, BioScience, Volume 67, Issue 4, April 2017, Pages 386–391, https://doi.org/10.1093/biosci/bix010

Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN.VIGISAN Inquérito Nacionalsobre Insegurança Alimentarno Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, 2021.

United Nations. Food Systems Summit2021. Member State Dialogue Convenors and Pathwayshttps://summitdialogues.org/overview/member-state-food-systems-summit- dialogues/convenors/

Sobre a autora:

Márcia Rocha Silva, é fellow Youth Climate Leaders da turma 2/2021 do curso de Liderança Climática para o Século XXI. Médica Veterinária, pesquisadora, D.Sc. em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento pela UFRJ, com experiência em governança e sustentabilidade do setor pesqueiro, sistemas de certificação sustentável para aquicultura, extensão rural e segurança do alimento. Atua na promoção e desenvolvimento de programas e estratégias de sustentabilidade dos sistemas alimentares, frente às mudanças climáticas.



Márcia Rocha Silva participou da 6ª edição do Curso YCL no segundo semestre de 2021 como bolsista. As referências e opiniões expressas no artigo são de responsabilidade da autora.

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