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De Greta às Kardashians: furando a bolha do debate climático

O desafio de “furar a bolha” do debate climático

Ao entrar em grandes portais de notícias entre outubro e novembro de 2021, é fácil encontrar notícias sobre a emergência climática na qual vivemos e os desafios que ela nos impõe. São artigos informativos e de opinião relatando a preparação e as discussões na maior instância de negociações da temática: a Conferência das Partes das Nações Unidas, também chamada de COP, que encerrou agora sua 26ª edição. Afinal, a ciência não está mentindo: é preciso se mexer e tomar atitudes para ontem, como mostrado pelo relatório mais recente do IPCC. Pode-se observar que atualmente o tema é mais divulgado e discutido quando comparado a anos anteriores na grande mídia. Mas qual será o real impacto desta divulgação e comunicação? Comunicar as alterações climáticas e fazer com que o público se conecte ao tema não é tarefa fácil. Será que as discussões estão chegando onde realmente importa? Em quem enfrenta as piores consequências da crise que vivemos? Por vezes, o debate climático parece que fica em uma mesma bolha e a sensação é que ele é debatido entre as mesmas pessoas - privilegiadas, longe da base, homogêneas. E onde estão as outras vozes? Como expandir esse debate? A COP26 tem se mostrado mais do mesmo em termos de representatividade em espaços formais de negociações, inclusive com problemas práticos de acessibilidade. Segundo Iago Hairon, da Open Society, em entrevista para a ECOA, a sensação na conferência de Glasgow é que há dois eventos distintos: um para as negociações oficiais - onde as decisões são tomadas - e outro para os grupos marginalizados que participam como observadores e não têm acesso a esses espaços. Como alcançar a justiça climática dessa forma?

É preciso ampliar o debate climático e usar novas formas de se comunicar para se chegar nas bases, levar o debate para o público geral e popularizar a demanda por ações efetivas para todas as pessoas, acessibilizando a ciência e ampliando as vozes daquelas que já lutam por essa causa.

Imagem: Tweet de Flávia Bellaguarda sobre a COP26.

Influenciadoras do clima

As redes sociais ganharam força como meio de comunicação e têm o potencial de democratizar o conhecimento e acessar novas perspectivas através de outras vivências. Nesse meio é possível encontrar quem se torne conhecido pelo conteúdo produzido ali, se tornando influenciador dentro e fora das redes e também quem já seja famoso e consiga levar o debate a mais lugares.

Um exemplo que merece ser citado é de Greta Thunberg, uma garota de 18 anos que apenas com 16 anos moveu o mundo a partir de seus protestos na Suécia. Se tornou uma das 100 pessoas mais influentes do Time, uma das 100 mulheres mais importantes da Forbes e vem palestrando e debatendo o tema de mudanças climáticas em eventos importantíssimos como TEDx e nas últimas Conferências das Nações Unidas pelas Mudanças Climáticas. Greta tem sido um dos nomes mais fortes e importantes atualmente sobre o assunto e com um rosto completamente diferente, pois é uma jovem falando para outros jovens sobre o futuro da geração.


Imagem: Greta Thunberg, em frente ao parlamento sueco em 2018, em uma das greves pelo clima que organiza semanalmente (foto: picture alliance/DPR/H. Franzen)

E falando de juventude, não é preciso nem ir até a Suécia para encontrar um grande exemplo de liderança climática. Como parte da rede YCL, a Amanda Costa é Jovem Embaixadora da ONU e fundadora da organização Perifa Sustentável, que mobiliza juventudes em busca de uma agenda de desenvolvimento que parta da justiça racial e ambiental. Amanda está na COP26 com a missão de “furar a bolha e ampliar o discurso”, buscando a participação de periferias no desenvolvimento de soluções. Em suas redes sociais e profissionais, é possível acompanhar sua trajetória inspiradora de ativista climática, com reflexões essenciais para entender e amplificar as vozes das juventudes negras no movimento climático.


Imagem: Amanda Costa, ativista ambiental (Foto: Fernando Moraes / @fmoraesfoto).

Algumas celebridades também passaram a falar de questões ambientais e climáticas, ampliando o escopo do debate. Desde a eleição de 2018, a cantora Anitta vem sendo cobrada a se posicionar politicamente e durante a pandemia ela e Gabriela Prioli fizeram diversas lives no Instagram sobre assuntos políticos básicos. Também desde 2018, ela adotou uma dieta vegana e lançou uma linha vegana de produtos para cabelos. Em setembro deste ano, ela e grandes personalidades, como Papa Francisco e Obama, foram convidados a participar do evento "Dear Earth" onde foram debatidos assuntos sobre o futuro do planeta no YouTube e várias empresas importantes foram cobradas sobre o assunto.


Imagem: cartaz do evento YouTube Originals - Dear Earth.

A família Kardashian é outro exemplo de celebridades que começaram a mudar os hábitos alimentares e a incentivar seus fãs ao mesmo. Desde que assistiram e divulgaram nas suas redes sociais o documentário "Seaspiracy: Mar Vermelho" as blogueiras deixaram de se alimentar de peixes. A matriarca da família criou uma linha de produtos de limpeza vegana e a filha mais nova adicionou à sua marca de maquiagem produtos livres de crueldade animal e produtos veganos.


Imagem: Kourtney Kardashian compartilhando o documentário da Netflix em seu Instagram (Foto retirada do Instagram / @kourtneykardash).

A arte e o entretenimento como meio de conexão: é preciso se emocionar

Uma forma de levar conhecimento para além da bolha da sustentabilidade e alcançar o público comum para apoiar e conhecer a causa climática é através da arte, com ferramentas audiovisuais e conteúdos de entretenimento - como visto no exemplo do documentário compartilhado por Kourtney Kardashian. Falar sobre mudança climática pode se tornar complexo, com dados científicos que nem sempre são de simples compreensão por leigos, colocando certa distância entre o conteúdo e o cotidiano da vida das pessoas. Com os recursos visuais e narrativos que a arte apresenta, as informações podem ser apresentadas de forma mais simples e direta, que mostra as mudanças como são e seus impactos no dia-a-dia.

Recentemente, uma iniciativa muito interessante foi adotada pela Netflix: Juntos Pelo Nosso Planeta: uma nova coleção de histórias sobre sustentabilidade na Netflix. Com ajuda de algumas pessoas por dentro do assunto, a gigante do streaming criou uma lista de documentários e filmes com a temática de mudanças climáticas, incluindo filmes animados, cativantes e até para crianças. A partir disso, 160 milhões de espectadores assistiram algum tipo de conteúdo com esse tema e 62% das pessoas disseram se interessar pelo tema, que afeta a nossa vida diretamente.

Um belo exemplo de conteúdo disponibilizado pela Netflix é a série documental “Nosso Planeta”, com narração do grande ambientalista David Attenborough. Na produção, os diretores trazem imagens fascinantes e inéditas de diversos lugares diferentes do planeta, com suas flora e fauna nativas, curiosidades, comportamentos e desafios que a exploração humana causa em cada um. É possível ter uma grande visão de como as mudanças climáticas já estão e como irão impactar todas as vidas na terra, não só as nossas quanto seres humanos. O recurso emocional e de conexão é muito bem explorado nessa obra.

A arte também pode proporcionar a experiência da conexão e da emoção de forma mais direta. É o caso da exposição gratuita atualmente em curso em São Paulo/SP, no Museu Brasileiro da Escultura e da Ecologia (MuBE): Por um Sopro de Fúria e Esperança - Uma declaração de emergência climática (visitação aberta até 30 de janeiro de 2022). É uma experiência imersiva, sentimental e que mexe com as sensações, podendo ser vivenciada por pessoas de todas as idades. Com obras diversas de diferentes artistas, é possível refletir sobre nossas origens, nosso pertencimento junto à natureza, justiça climática e a proteção dos povos originários - com textos sensíveis que guiam a visita de forma muito efetiva. Um trecho marcante é a fala de Sônia Guajajara que está na exposição: “A mãe de todas as lutas é a luta pela Terra”.


Imagem: obras diversas da exposição "Por um Sopro de Fúria e Esperança - Uma declaração de emergência climática", no MuBE (fotos: Renata Vieira Lourenço).

Projetos, pessoas e redes: é possível ir mais longe!

A ideia do presente artigo é discutir sobre a dificuldade de furar a bolha e alcançar pessoas que não estão acostumadas a procurar sobre assuntos de mudanças climáticas - ou se deparar com elas naturalmente - e como chegar até elas de uma forma simples e didática, pois essa temática muitas vezes parece complicada! Tudo que trouxemos de exemplo serve para mostrar que, até entre as pessoas que já consomem esse tipo de conteúdo, ainda há formas de se surpreender com novas propostas e projetos - e então promover que novos conteúdos sejam procurados, utilizados e propagados para que o debate climático seja de fato democrático e justo.

Através de novas estratégias de comunicação e da arte é possível encontrar maneiras fascinantes de se conectar com narrativas inéditas, de se conectar com o outro, de aprender sobre diferentes contextos e de chegar a soluções inovadoras através da cooperação e da troca - focando na justiça climática com participação de populações que agora podem se colocar e se enxergar no centro do debate.

Sobre as autoras:


PENHA CARRETA é bióloga, licenciada em biologia, técnica em logística e especialista em sustentabilidade ambiental e inovação. Trabalha embarcada como observadora de mamíferos marinhos para monitoramento ambiental, seja para empresas e projetos particulares de obras e sísmica ou para ONGs e projetos focados em preservação da fauna.




RENATA VIEIRA LOURENÇO é Internacionalista e mestra em Desenvolvimento Sustentável pela UnB. Em 2017, foi a primeira estagiária do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) no Brasil, onde trabalhou com os ODS. Pesquisou sobre o papel das ONGs nas políticas brasileiras de REDD+ para sua dissertação e atualmente trabalha em duas organizações sem fins lucrativos de pequeno porte (IBAP e APRODAB).


Penha Carreta e Renata Vieira Lourenço participaram da 6ª edição do Curso YCL no segundo semestre de 2021 como bolsistas. As referências e opiniões expressas no artigo são de responsabilidade das autoras.

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