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Manguezais: os guardiões do clima

A importância da preservação recuperação para o combate e adaptação às mudanças climáticas


A importância dos manguezais

Entre o mar e a terra, a água salgada e a doce, a marginalização e a resistência. Esse é o manguezal, um ecossistema tropical encontrado na transição entre ambientes marinhos e terrestres e com espécies de fauna e flora adaptadas à variação dos níveis de maré e desalinidade, entre outros. Você sabia que existem espécies de mangue que são tão adaptadas a essas condições que chegam a excretar o excesso de sal pelas folhas da árvore? Pois é, esse tipo de característica garante a sobrevivência da floresta em pé e sua constante adaptação ao meio que se encontram.

Esses ecossistemas são encontrados em 124 países, representando cerca de 138.000 quilômetros quadrados das zonas costeiras pelo mundo. Porém, estudos apontam que cerca de 75% dos manguezais estão concentrados em apenas 15 países, com destaque para a Indonésia que contém a maior cobertura de florestas de manguezais, seguida pelo Brasil e Malásia. No caso do Brasil, as florestas estendem-se desde o Amapá até o estado de Santa Catarina, presentes em baías costeiras e estuários, geralmente dentro ou próximos de zonas urbanas.

Beleza que encanta, manguezal na APA de Guapi-Mirim, Baía de Guanabara, RJ (Foto: Reprodução/Thayná Corrêa)

Devido à sua posição nas zonas costeiras, os manguezais desempenham uma grande quantidade de serviços ecossistêmicos, em que podemos citar: o sequestro de carbono, a retenção e imobilização de contaminantes, a proteção contra tempestades e tsunamis, fornecimento de alimentos e trabalho e berçário e criatório para espécies de peixes, aves, crustáceos e mamíferos. Assim, os manguezais são cruciais para manutenção da biodiversidade, como também por fornecerem benefícios diretos e indiretos às atividades humanas. Por isso, se caracterizam como um dos ecossistemas mais valiosos (U$193.843,00 por hectare anualmente; valores de 2007), equivalente a 36 vezes o valor das florestas tropicais.

Um exemplo na prática desses serviços é a Área de Proteção Ambiental de Guapimirim (APA de Guapimirim), uma área de mais de 2 mil hectares de manguezal na Baixada Fluminense do Estado do Rio de Janeiro, em que só a existência da APA de Guapimirim já protege três rios de extrema relevância ambiental, os rios Guaxindiba, Guapi e Caceribu, que responsáveis por aproximadamente 70% da água fluvial que desemboca na Baía de Guanabara e viabilizam o equilíbrio das condições de vida deste ambiente.

Além dessas funções, esses ecossistemas são uma parte da fundamental da cultura, seja por serem fonte de inspiração para artistas e movimentos culturais e políticos, como o Mangue Beat, Chico Science e Nação Zumbi, ou por serem um local de identidade, de pertencimento e de brincadeiras de populações costeiras envolvidas em uma complexa de relações e conflitos, como destaca a pesquisadora Cecília Mello. O manguezal é vida e sustenta vida através de si.

A Ciência por trás do ‘Carbono Azul’

Com amplo reconhecimento pela comunidade científica por seu papel na dinâmica do carbono (C), apesar de cobrirem uma pequena porção das áreas vegetadas, os manguezais respondem por 11% do sequestro de carbono das zonas costeiras. Isso levou à criação do termo Blue Carbon sinks (Sumidouros ou estoques de Carbono Azul) para esses ecossistemas e as demais áreas úmidas costeiras (pradarias marinhas e marismas), em referência à essa grande capacidade em reter carbono, principalmente em seus solos.

Neste sentido, a capacidade de armazenar grandes quantidades de carbono nos solos dos manguezais resulta da combinação de uma elevada produção de matéria orgânica (por exemplo, serapilheira) e de uma menor taxa de decomposição. A assimilação de carbono é feita fotossíntese que sequestra o dióxido de carbono (CO2) atmosférico, como também pelos microorganismos presentes no solo. Além disso, em função das frequentes inundações por água do mar, a difusão do oxigênio pelo solo é impedida pela constante presença de água. Assim, a decomposição da matéria orgânica ocorre de forma mais lenta e menor eficiência energética e o balanço entre o aporte de matéria orgânica e as perdas de carbono (através da ação da decomposição, erosão e lixiviação) favorece a acumulação de carbono.

Com isso, pesquisas também conseguem comparar diferentes ecossistemas e identificarem que os estoques de carbono médio em manguezais (valor médio de 956 toneladas de carbono por hectare) equivale a 2 ou 3 vezes o valor quantificado em florestas tropicais e podem alcançar até 8 vezes quando comparados a ecossistemas influenciados por condições de clima semiárido.


Coleta de solo para quantificação de carbono na APA de Guapimirim, Baía de Guanabara, RJ (Foto: Reprodução/Thayná Corrêa)

Ameaças e fatores de pressão

Infelizmente, apesar da sua relevância ambiental, social e econômica, os manguezais são muito marginalizados e com uma visão culturalmente deturpada por parte da população, em que a palavra ‘mangue’ é constantemente associada à um lugar “sujo” e de mau cheiro, um conceito errado, pois isso é ligado a deposição incorreta de esgoto e não ao manguezal em si. Certamente, a marginalização desse ecossistema está relacionada à falta de interesse político (tanto na flexibilização da legislação, quanto na permissão de empreendimentos e obras inadequadas) e da sociedade, em geral, o que afeta a conexão das pessoas com o mangue. Por este motivo, os manguezais estão sujeitos a ameaças e fatores de pressão, dentre eles:

  1. Aquicultura, em especial a Carcinicultura: A substituição de manguezais para construção de tanques de camarão e de barragens modificam o fluxo e a dinâmica das águas e suas espécies, poluindo os corpos de água naturais e deslocando populações tradicionais de seus locais de origem. Assim como o especialista Angelo Bernardino alerta, essa substituição, cada vez mais comum pelo mundo, “lança na atmosfera mais de 1tonelada de CO2 por hectare, 10 vezes mais carbono do que o liberado pela conversão da mesma área de floresta amazônica em pasto”, uma prática perigosa que desperdiça todo o potencial desse ecossistema vivo.

  2. Indústria pesqueira: Atualmente os manguezais e estuários vêm sofrendo com o aumento das atividades pesqueiras, isso acaba ameaçando espécies importantes de fauna e flora, como o caranguejo-uçá e o guaiamum, espécies chaves para o equilíbrio ambiental. Alguns exemplos de atividades de alto impacto são o uso de explosivos para pesca e a pesca de arrasto.

  3. Expansão urbana e turística: Não é de hoje que os manguezais sofrem com desmatamento, porém grande parte da supressão dos manguezais tem se intensificado com a construção de empreendimentos, expansão urbana e turística. Alguns problemas provenientes destas atividades são aterramento de áreas de manguezal, erosão, eutrofização e mudanças nos corpos hídricos com a liberação de poluentes domésticos e industriais.

Além disso, dependendo do contexto do local ou região, outros fatores de pressão podem ser expressivos e intensificarem o desmatamento de manguezais, tais como: a agricultura para cultivo de arroz e cana-de-açúcar, a exploração da madeira descontrolada para construção e fonte de combustível e até mesmo, os efeitos da mudança do clima em que é previsto que podem provocar o recuo dos manguezais na busca de condições para sobreviver, frente a alterações nas correntes, aumento da frequência de tempestades e o aumento do nível do mar.

Preservação e recuperação como estratégia

As zonas costeiras abrigam cerca de 40% da população mundial, muitas destas regiões e comunidades enfrentam riscos cada vez maiores de serem afetadas por ressacas, elevações do nível do mar, tempestades, ciclones e até tsunamis. A maior parte dos eventos podem causar ondas destrutivas e aumento do nível do mar, deteriorando a infraestrutura. Além disso, a engenharia costeira e suas proteções mostram-se ultrapassadas pelo aumento do potencial desses desastres e pelo alto custo de implementação.

Assim, em contrapartida às barreiras, calçadas e muros, a natureza nos apresenta uma solução mais eficiente, os manguezais. Além de seu papel no sequestro de carbono, suas estruturas físicas se mostram bem adaptadas e formam uma excelente barreira natural, diminuindo a força dos ventos e a altura das ondas, consequentemente reduzindo a erosão costeira, protegendo os recursos naturais e também as comunidades ali instaladas.

Um exemplo notório da atuação dos manguezais como barreira natural e mitigador de impactos e danos físicos para os moradores das zonas costeiras é o caso do Tsunami que ocorreu no Sudeste Asiático no ano 2004, chamado de maior catástrofe natural do milênio com 9,1 na escala Richter e mais de 230 mil mortos. Os locais onde o mangue foi suprimido para criação de hotéis, casas e clubes foram os mais afetados pela água do mar e os destroços que vieram junto das ondas. Já os locais que possuíam suas florestas de mangue preservadas dissiparam a energia das ondas e seus impactos, protegendo sua população.

Dinâmica dos impactos em locais com e sem manguezais (Foto: Reprodução/Banco Mundial)

Além disso, as práticas de recuperação e replantio de manguezais degradados se mostram a estratégia perfeita para combater as emissões antrópicas de CO2 e as mudanças decorrentes do aumento de gases de efeito estufa na atmosfera. Portanto, para isto é importante estimular iniciativas que promovem e financiam pesquisas científicas, auxiliam na elaboração e aplicação de políticas públicas e fortalecem ONGs e fundos, como a Global Mangrove Alliance (GMA). Essa aliança entre as organizações Conservation International, International Union for Conservation of Nature, The Nature Conservancy, World Wildlife Fund e Wetlands International tem o objetivo de conservar e restaurar esse ecossistema, expandindo sua extensão dos manguezais em 20% até 2030.

Logo, deu para perceber a riqueza e importância dos manguezais e as ameaças para esses ecossistemas. Em um mundo cada vez mais hostil com os efeitos do aquecimento global evidentes, procuram-se soluções para mitigar os efeitos dessas mudanças e dar voz às ideias para adiar o fim do mundo, por isso devemos olhar para trás e consertar nossos erros, enquanto isso ainda é possível.

Sobre a autora: Thayná de Ciza Cantanhêde Corrêa

Niteroiense, Pesquisadora, apaixonada pelo meio ambiente e por livros. Graduanda em Ciência Ambiental e Iniciação Científica em pesquisas sobrea Ciência do Solo e Dinâmica de Carbono em Manguezais ao longo do Brasil pelo Departamento de Geoquímica da UFF/Niterói. Integrante do HUB-RJ da Youth Climate Leaders e Líder Climática pelo The Climate Reality Project. Com experiência em jornalismo científico e educação ambiental através de materiais didáticos, aliando Comunicação com Design.



Thayná de Ciza Cantanhêde Corrêa participou da 6ª edição do Curso YCL no segundo semestre de 2021 como bolsista. As referências e opiniões expressas no artigo são de responsabilidade da autora.

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