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O que podemos aprender com uma pequena cidade localizada na Ilha do Marajó no Pará...

Afuá é o nome da cidade que fica na região Norte do estado do Pará, a uma distância aproximada de 78 km de Macapá. A pequena cidade de população estimada em pouco menos de 40 mil pessoas (IBGE) é conhecida por várias denominações, como por exemplo: “Veneza Marajoara” ou “Veneza Brasileira” por ser rodeada pelo rio Amazonas e ter sua estrutura flutuante sobre as águas; “Terra do Açaí” por ser uma das cidades paraenses com mais abundância do fruto; mas sem dúvida a mais inesperada denominação seja a “Amsterdã Brasileira” ou “Cidade das Bicicletas” por ter quase que todos seus habitantes praticantes da mobilidade ativa.

A cidade tem sua origem marcada por voltados anos 1890, mas foi em 2012 que o então prefeito baniu quaisquer veículos motorizados. A iniciativa teve o viés inicial de preservar a estrutura das ruas de madeira que compõem a cidade, mas os benefícios foram além das expectativas. Atualmente, a cidade emite quase zero carbono proveniente do transporte, e também conta com zero acidentes causados pelo trânsito.

Foto: Marco Santos – Agência Pará

Para chegar na cidade utiliza-se transporte fluvial, já no espaço urbano as ruas são majoritariamente passarelas de madeiras sobre o terreno alagadiço, o que inviabiliza a circulação de veículos automotores e os moradores fazem da bicicleta e da caminhada seus principais meios de locomoção. É importante destacar a criatividade do povo afuaense, o “bicitáxi” foi uma invenção de Raimundo Gonçalves que pensando em uma alternativa de transporte para cargas e famílias, conectou duas bicicletas através de uma estrutura de metal com 4 rodas em que substitui perfeitamente um veículo automotivo para uma cidade pequena, a diferença é que o veículo “pedalante” de 4 rodas emite zero carbono e faz bem à saúde do condutor, o qual junto com seus passageiros podem vislumbrar-se da bonita paisagem urbana natural enquanto passeiam pela cidade em baixa velocidade... podem até mesmo observar as crianças que naquele lugar aproveitam dos espaços públicos, brincando, sem qualquer risco de serem atingidas por um veículo em alta velocidade.

Em Afuá, o bicitáxi tornou-se um símbolo e logo também patrimônio cultural do município, depois de popularizado como um meio de transporte familiar e de mercadorias, tornou-se uma fonte de renda para os “bicitaxistas” que fazem atividade similar aos taxistas de qualquer cidade, e o veículo passou a ser utilizado também em serviços públicos relacionados por exemplo à saúde e ao transporte escolar. No Festival do Camarão, o mais importante evento anual do município, há uma competição em que os proprietários dos bicitaxis ornamentam seus veículos representando costumes e seus povos para um desfile e escolha do veículo mais bem ornamentado.


Foto: VivaMarajo - Flicker

O que podemos absorver é que Afuá é um exemplo de cidade com práticas sustentáveis que são inteligentes, criativas e demonstram resiliência. A cidade adaptou-se a uma configuração de mobilidade que não remonta ao comum de outras cidades com o mesmo número de habitantes ou até mesmo com menor extensão territorial onde os carros e motocicletas ainda fazem a maior parte dos deslocamentos cotidianos.

A seguir alguns indicadores sobre a mobilidade urbana em Afuá com base na literatura “O Brasil que pedala” organizado por André Soares e Daniel Guth:


Dos indicadores acima podemos inferir que a mobilidade ativa, principalmente por bicicletas, já foi consolidada culturalmente na cidade. Os hábitos saudáveis e sustentáveis foram introduzidos e cresceram na cultura dessa população desde cedo e isso reflete na maior parte da faixa etária jovem que utiliza da bicicleta atualmente. Uma outra característica diz respeito ao tempo de deslocamento, o tempo máximo de 14 minutos reflete curtas distâncias, mostrando que Afuá pode ser uma cidade bem adensada, o que se caracteriza pela maior facilidade para deslocamentos ativos.

Além da mobilidade urbana é necessário destacar que a cidade valoriza os frutos da sua floresta; o açaí, que é responsável por uma parte representativa da economia, é um fruto colhido sem a eliminação da árvore, e consiste em uma espécie regenerativa e de colheita constante durante o ano, o que garante à população: alimentação nutritiva e comércio sustentável dos seus frutos. O camarão proveniente da região é pescado e comercializado em grande escala para outras cidades, no mês de junho a cidade é fortalecida economicamente pelo turismo, quando realiza o Festival do Camarão que chega a atrair de 40 a 50 mil visitantes anualmente.

Foto: Marco Santos – Agência Pará

Afinal, o que podemos aprender com Afuá é que construir cidades baseadas na mobilidade ativa é possível. Apesar de a grande parte da população brasileira concentrar-se em cidades de médio e grande porte; as cidades pequenas, consideradas com menos de 100 mil habitantes, representam 43,5% da população brasileira (IBGE). As quais contam com maior facilidade de adensamento urbano, maior segurança tanto em relação aos veículos motorizados quanto à violência, e certamente possuem a chance de construir uma cultura diferente quanto ao desenvolvimento de mobilidade sustentável. Algo que hoje em dia as cidades grandes almejam, visto o potencial desenvolvimentista desse modelo de mobilidade.

É notório também, o quanto as pessoas foram criativas para se adequarem a regulamentação da cidade, o “bicitáxi” é um ótimo exemplo dessa resiliência, onde um novo meio de locomoção foi pensado principalmente para um transporte coletivo e sem motor. São esses exemplos de cidades e de soluções que nos motivam a acreditar que a emergência climática quando conhecida e de fato priorizada para os nossos gestores e diversos atores desacelerará; soluções aparecerão e poderão ser efetivas. Talvez restringir o uso do veículo automotivo em uma pequena cidade, em um bairro, ou até mesmo em uma zona escolar possa ser o começo de uma grande mudança...

Referências

BENJAMIN, Manoel Dias; BENJAMIN Maria de Jesus da Silva. AFUÁ: VENEZA MARAJOARA, PARÁ-BRASIL. Observatório Geográfico de América Latina. 2010

MARTINS, Carmentilla das Chagas; EVANGELISTA, Cledson Moraes. MITO E HISTÓRIANA CIDADE ENCANTADADE AFUÁ. Fronteiras e Debates, Macapá, v. 7, n. 1, p. 83-98, jan-jun 2020.

SOARES, André; GUTH, Daniel (org.). O Brasil que pedala: a cultura da bicicleta nas cidades pequenas. Rio de Janeiro: Jaguatirica, 2018.

Sobre o Autor: Matheus Franco Carvalho

Matheus é nascido em Amarante do Maranhão, graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Tocantins em Palmas e Mestre em Engenharia de Sistemas Urbanos pela University of Debrecen na Hungria desenvolve pesquisa e atividades no campo da Mobilidade Urbana e mais especificamente em Desenho Urbano de Áreas de Baixo Carbono e Segurança Viária, em sua última experiência atuou como Assistente de Planejamento Urbano para o Hungarian Urban Knowledge Centre, onde desenvolveu pesquisas e projetos para requalificação urbana em uma importante região de Budapeste. Em suas outras experiências profissionais, trabalhou com análises de dados de segurança viária nos Estados Unidos e desenvolveu sua tese de mestrado com tema voltado a “Caminhabilidade nas Zonas Educacionais”.

Matheus é um planejador do ambiente urbano, mas sempre que possível gosta de viajar para fazer ecoturismo. Em seu tempo livre gosta de praticar esportes ao ar livre, pedalar, correr, fotografar, e gosta muito de cozinhar. LinkedIn.


Matheus Franco Carvalho participou da 6ª edição do Curso YCL no segundo semestre de 2021 como bolsista. As referências e opiniões expressas no artigo são de responsabilidade do autor.

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